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Por Definir

Por Definir

30
Nov18

Reconfortante

Um dilúvio acontece lá fora. Cá dentro, o calor humano faz-se sentir. Enquanto uns trabalham, outros põem a conversa em dia. Raros são os que, sozinhos numa mesa, ouvem música ou escrevem num caderno. Eu sou das que escreve mas não estou sozinha. A minha chávena de café com leite ajuda-me nos pensamentos e aclara-me as ideias. O conforto está aqui e é tudo o que preciso.

29
Nov18

O que será do futuro?

Na semana passada, enquanto esperava pelo meu voo que me levou à capital do Vietname, assisti a uma situação, no mínimo, absurda. Todo o diálogo foi em vietnamita pelo que me limitei a deduzir pelos gestos e ações dos envolvidos o que estava a acontecer, tal como os outros turistas que estavam na sala de espera. Segundo pareceu, um casal estava prestes a embarcar no avião quando a hospedeira de bordo reparou que a mala da senhora excedia as dimensões pré-estabelecidas para bagagem de mão. Comummente, nos aeroportos existem uns moldes de bagagem com o intuito de o cliente verificar se a sua mala corresponde ao tamanho expectável. A verificação é feita introduzindo a mala nos moldes. Se não couber, não é aceite como bagagem de mão.

Ora, o senhor que acompanhava a senhora quis mostrar que não havia qualquer problema e por isso, introduziu a mesma no molde. Não coube. Tentou de novo. Não coube. Tentou mais 10 vezes e aqui é importante dizer que, nesta altura, já a senhora estava aos gritos com o senhor que por sua vez estava aos gritos com as hospedeiras de bordo. Entretanto o senhor acha que é boa ideia esmurrar a mala para a fazer entrar no dito molde. Como também não resultou, começou a saltar encima dela.

Já todo o aeroporto estava a assistir à barafunda onde todos os envolvidos gritavam e escorriam suor dos nervos (e do esforço de esmurrar e pontapear a mala). A maioria das pessoas estavam boquiabertas com o ridículo da situação. Eu fazia parte dessa maioria mas ao meu lado estava um britânico que não conseguia rir mais. Entre risos, dirige-se a mim e diz: "é tão bom quando estamos de fora a assistir a uma cena destas". E continuou a rir às gargalhas. Eu, incapaz de lhe responder, ri de nervoso e de preocupação com o futuro da humanidade. 

23
Nov18

Não se pode ter tudo na vida

Sempre utilizei a palavra ‘maricas’ ou ‘mariquinhas’ no meu dia-a-dia e, só quando a igualdade de género teve uma crescente, é que me debrucei sobre os vários sentidos da palavra. Para mim, ‘maricas’ sempre foi (e sempre será) um sinónimo de medroso, cobardolas e medricas. Chamava muitas vezes ‘mariquinhas pé-de-salsa’ ao meu primo que, como não tenho irmãos, atormentava quando era mais nova. Ainda hoje o faço, já o garoto tem 18 anos.

Lembro-me de um dia uma pessoa me ter chamado a atenção para dois ‘maricas’ que estavam a passar na rua. Instintivamente, perguntei se os conhecia para estar a fazer aquele reparo, ao que a pessoa me disse que era fácil de saber uma vez que estavam de mãos dadas. Fiquei confusa durante um segundo e percebi que o que a pessoa queria dizer era que eram gays.

Ao que parece, ‘maricas’ não é só sinónimo de medroso mas também de ‘bicha’, ‘larilas’ ou ‘paneleiro’ – vocábulos extremamente negativos e depreciativos. Mais especificamente, pensei no caso do meu primo adolescente. Sendo ele bastante tímido, se se sentisse atraído por rapazes, teria muita dificuldade em o revelar e teria ainda mais se achasse que eu repudiava a homossexualidade. Esta teoria estende-se ao resto dos meus amigos e familiares. E não são só as pessoas do género masculino que se podem sentir ofendidas mas também estou sujeita a levar uma reprimenda de qualquer feminista que me oiça.

Acabei de decidir que o mais seguro será eliminar a palavra ‘maricas’ do meu vocabulário. Em prol da indiscriminação, a minha liberdade de expressão sofreu um golpe.

21
Nov18

Seletividade

Sempre comi tudo, bebi tudo e adorei tudo. Agora, sou mais seletiva, como gosto de me denominar. A minha tia, claro está, chama-me ‘picuinhas’ e ‘menina da cidade’ só para me importunar.

Já eu, acho que esta mudança é, não só positiva, como necessária. Estreitar os meus gostos e preferências é uma forma de crescer, de amadurecer e de ser feliz. Um exemplo muito ilustrativo é o meu café com leite que tomo, todos os dias, de manhã bem cedo. É das actividades que mais prezo na minha vida. Sou uma pessoa simples, portanto. Contudo, absolutamente abomino bebe-lo frio. Não faço um escândalo se mo servirem assim mas, gentilmente, peço que lhe dêem uma fervurinha. Para quê sofrer durante 5 minutos se posso ser feliz durante 15?

As minhas escolhas baseiam-se na quantidade de felicidade que me proporcionam. Ou na menor quantidade de sofrimento que me proporcionam. Escolhas estas, que apenas têm consequências na minha pessoa.

Por esta razão, quero somente praticar actividades que realmente me deleitam ainda que tenha a perfeita noção de que nem sempre é possível. Não sou esquisita, sou seletiva.

19
Nov18

Nunca mais chove a sério

A meteorologia ameaçava chuva para todo o dia mas logo o sol a desmentiu.

Desde que cheguei que me tenho sentido nada menos do que enganada. Tantas promessas de chuva durante semanas a fio, dias constantemente nublados com possibilidade de dilúvio mas até agora, nada. Choveu meia dúzia de vezes em 3 meses. Sol, quase todos os dias. Para isto, mais valia ter ficado em Portugal que até já recebe furacões.

18
Nov18

O outro lado

No meio do caos, com imenso trabalho para fazer e com (quase) nenhum tempo, dou por mim extremamente nervosa e ansiosa. O meu lado responsável fala mais alto e a impossibilidade de fazer um trabalho perfeito leva-me ao desespero.
Depois, o meu lado mais emocional e subjetivo ri-se e goza comigo por estar numa aflição por algo que não a merece. E, ao invés de me aborrecer, rio-me com ele. Nesses instantes, vibro, de nervoso e de felicidade. Compreendo, por instantes, a sortuda que sou e apercebo-me da realidade: estou a viver na Ásia e o meu maior tormento é não comer pão alentejano há 3 meses.

16
Nov18

Um café com leite complexo

São 1,71€ pelo café com leite que bebo todos os dias no mesmo café. Para além de me manter acordada, ajuda-me a concentrar e a focar nas minhas tarefas diárias (todas em frente ao computador). 

Com a bebida, vem um pacote de açúcar, uma bolachinha de chocolate e ainda uma espuma no topo da chávena onde o empregado, que despacha o pedido, faz o desenho de uma espécie de flor com folhas.

Ora, eu não uso o pacote de açúcar, não como a bolachinha e dispenso a espuma artística (ainda que reconheça a sua arte). Sabendo que o preço inclui estes 3 produtos, quanto pagaria se os excluísse do pedido? 1,40€? Seriam menos 0,31€ por dia e engane-se quem diz que é uma ninharia porque, ao fim de um mês, teria amealhado 9,30€ - valor suficiente para almoçar duas vezes e jantar uma. 

Sinto-me tentada a fazer um pedido especial, pedindo um preço especial. 

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Foto tirada por mim

 

15
Nov18

Obrigada, mãe

Não queria ir a Portugal no Natal porque, uma vez que estou na Ásia, quero aproveitar e visitar tudo quanto me é possível. A minha mãe exigiu e obrigou-me a comprar bilhete de volta para chegar antes do dia 24 de Dezembro.

Ontem, enquanto estava a beber uma bebida num famoso café da zona, reparei nas decorações natalícias do espaço. Fiz as contas mentalmente e falta apenas um mês e uma semana para o Natal. Não dei, mais uma vez, pelo tempo passar. Fiquei nostálgica, claro está. 

Muitos desamam a época devido ao consumismo praticado durante a mesma. É realmente assustador o crescimento do consumo nos últimos meses do ano mas, na minha família, não sofremos desse mal. Somos muitos. Como o dinheiro não abunda, não há presentes para ninguém. 

Ao invés de prendas e surpresas, temos a família (quase toda) à mesa (situação rara), disfrutamos de uma refeição farta (exageradamente farta), rimos pelas situações caricatas por que já passámos e choramos pelos que já não estão. Cliché ou não, para mim, o Natal é mesmo isso. A reunião. As discussões que acontecem sempre nesse dia porque faz parte. A tia gorda que implica comigo por eu evitar os doces dizendo "ai filha, a vida é tão curta para nos privarmos de coisas" mas é ainda mais curta se ela não se privar dessas mesmas coisas. O primo que fica bebêdo e se torna chato. A prima que só quer paz e amor no mundo. O tio que adormece à mesa. As crianças que choram, gritam e enervam todos. A avó que pede a todos que se sentem durante 2 horas porque se enerva com tanta gente na cozinha mas ninguém faz caso. O primo adolescente que se agarra ao telemóvel a noite toda. Todos têm um papel a desempenhar no Natal. Eu? Eu sou a que observo, a que me rio interiormente e a que choro também por me sentir tão feliz rodeada dos meus.  

12
Nov18

Um fracasso que lecionou

Um dia não me corria tão mal há muito tempo. 

A levantar-me às 6h30 para apanhar um autocarro que se atrasou, iniciei a viagem de ontem já cansada. O meu companheiro era um rapaz britânico que está na mesma situação que eu: a viver na Ásia por uns tempos. Licenciado em literatura inglesa, é um tipo simpático e, claro, adora livros. Poderia pedir melhor companhia? 

Incrivelmente, chegámos à cidade vietnamita com muita vontade de voltarmos para casa. De rastos e sem essa opção, decidimos comer qualquer coisa para repor energias. Dirigimo-nos a um restaurante local e pedimos o que sabíamos (pensávamos) ser seguro. Extremamente oleosas, as panquecas vietnamitas eram insípidas. O rapaz não só comeu tudo, como utilizou as suas mãos para o fazer. Nada contra não fosse ele limpar os dedos aos calções e à blusa. Considero-me uma pessoa limpa, extremamente asseada, fruto da minha educação. Penso que será fácil imaginar que não consegui acabar o meu almoço. 

Sabendo que ninguém é perfeito, esforcei-me para esquecer esta calamidade. Mais adiante, pagámos uns euros para ter acesso a um monumento considerado Património da Humanidade pela UNESCO. Foi uma desilusão. 

Havia apenas mais um ponto turístico que nos interessava e quando lá chegámos, o guarda avisou-nos que estava fechado. Frustrados, tentámos planear o resto do dia quando nos apercebemos que o guarda nos estava a chamar, pedindo dinheiro para a entrada. Percebemos que estava a ser corrupto e, como achámos a situação muito desagradável, partimos. 

O céu ameaçava chover pelo que decidimos tomar uma bebida reconfortante. Demasiado exaustos e desiludidos, queimámos 4 horas num café, à espera do comboio que nos levaria de volta a casa. Comboio esse que se atrasou mais do que 1 hora e que parecia saído dos filmes.

A plataforma era antiga e o senhor que dava indicações ao comboio tinha uma daquelas lanternas ao estilo anos 90. O conforto que oferecia era razoável mas não se enquadrava no espaço. Porque o comboio passava junto às casas, a pobreza deste país esteve mais visível que nunca. Senti que retrocedia no tempo e que estava no século XX. Foi a partir deste momento que parei de me sentir desapontada porque, no final do dia, eu tinha à minha espera uma cama confortável e comida para me aconchegar o estômago. 

 

12
Nov18

O meu dom para crianças

Adoro miúdos. Ainda que sejam birrentos e maçadores, gosto deles. Mas já reparei numa certa tendência: eles não gostam de mim. 

Estou sentada numa mesa de correr na minha coffee house preferida. Ao meu lado está um pai com a sua filha nos seus 7 ou 8 anos. A criança tem um conjunto de canetas numa caixa que arruma e desarruma constantemente. Parece-me um tanto quanto aborrecida e, não tendo nenhuma folha de papel, iniciou os seus desenhos no recibo do café do pai. Prestável como sou, ofereci o meu caderno à miúda para ela fazer rabiscos. O pai agradeceu mas a gaiata nem olhou para as folhas em branco que estavam à sua espera. Não só não ligou ao caderno como ainda foi buscar guardanapos e desenhou ali mesmo.

Agora estou numa situação constrangedora onde o caderno está aberto em cima da mesa, a criança não lhe toca, o pai não se mexe e eu não quero ser desagradável ao guardá-lo. 

Nota

Todas as imagens aqui publicadas são do Pinterest, excepto se existirem indicações contrárias.

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